É maravilhoso acordar e ouvir na janela uma revoada de periquitos, observar um casal de bem-te-vi no muro do seu quintal. Às vezes no final da tarde, na rede da varanda, vejo uma família de carcará sobrevoando os prédios vizinhos (Isso mesmo prédio!). Eu não moro em uma chácara, muito menos próximo de ambiente com florestas. Eu moro na Pituba, que por sinal o início do seu desmatamento aconteceu há quase 40 anos atrás.
O que venho observando nos céus da Pituba são pássaros que não eram comuns por aqui. Há quase três semanas atrás estava na frente do PC e eu e minha irmã avistamos pela janela um lindo falcão descansando o seu pouso da manhã no muro do prédio, onde moramos.
Há tempos já me questiono da onde está vindo esses animais maravilhosos? A sua chegada provocou um certo desequilíbrio. Os muitos micos que povoavam as amendoeiras das ruas estaduais da Pituba foram sumindo aos poucos. Os pardais que cantarolavam pelas ruas são raros por agora.
Não recrimino o falcão, os carcarás que vem caçando aos poucos a revoada de periquitos que ao serem expulsos do seu habitat escolheram a Pituba para morar. Eles estão seguindo a cadeia alimentar para continuarem sobrevivendo.
Fico deslumbrada por contemplar esses animais encantadores, mas ao mesmo tempo me preocupo com o destino destes. Vai chegar um momento que os animais não conseguirão se reproduzir, como já vem acontecendo com os periquitos, o seu número vem diminuindo dia-a-dia, os animais caçadores vão se encontrar sem caça. Essas aves vieram para cá na tentativa de continuarem vivendo, sobrevivendo.
Mas e nós estamos vivendo para desmatar para quê? Nós estamos desmatando a área verde da Paralela para apartamentos de luxo; para especulação imobiliária; para piorar nossa qualidade de vida no transporte; para consumirmos e criarmos novos consumismos. Mas onde está a qualidade de vida nisso tudo?
O falcão, os carcarás, o casal de bem-te-vi, os periquitos procuram a vida. Mas nós sabemos ainda procurar por ela? Nós, baianos, somos tão referenciados pelo jeito de vida propagandeado e vivenciado por Dorival Caymmi. Mas me pergunto: será que já esquecemos ou desaprendemos a viver Caymmi?
Onde está a particularidade, o singular dessa Salvador que provoca tanto frisson nas pessoas quando falamos que moramos na capital da Baía de Todos os Santos? Estamos ficando tão homogêneos! As pessoas vivendo em ambientes tão pequenos, tão fechados, poucos ambientes de lazer, de confraternização, de troca humana. Não quero ser saudosista, não podemos e, talvez, eu não queira voltar ao ritmo menos acelerado dos anos 30, 40 e 50, período que Caymmi descreve de forma tão tranqüila e menos atribulada que era vida soteropolitana. Quando penso em Caymmi gostaria que ainda estivesse presente o olhar calmo para vida, para nossa orla, para o nosso subúrbio - tão bonito, tão abandonado, tão maltratado e que guarda tantos segredos. Gostaria de uma vida mais calma não só preocupada em acumular dinheiro para termos um carro para chamarmos atenção dos outros, um mega celular para nos exibirmos; gostaria de uma vida calma para olharmos para nós e observarmos o que possuímos interiormente de diferente, e se valorizar por isso e não comprarmos objetos diversos para nos destacarmos, mas que na realidade acaba nos homogeneizando.
Não quero ditar que o contato com o verde é a melhor forma de vida, mas acredito que praças, parques ao longo de toda cidade e, inclusive, dentro dela é muito importante para as pessoas poderem escolher se querem ou não ter o verde em suas vidas. Esses ambientes abertos, ventilados onde podem acontecer encontros casuais ou planejados proporcionam troca humana. Hoje em dia, o shopping tem se tornado o ambiente de encontro, mas esse ambiente promove olharmos para nós, ou para um novo consumismo? Shopping (que significa comprar) é um ambiente para o consumo e não para promover calma, tranqüilidade e reflexão. Nós estamos tão atribulados e consumidos pelo tempo que achamos estranho ouvir dizer: momento de reflexão, de calma, momento de olhar para si e para o outro de preocuparmos conosco e com o outro.
Olho para as propagandas dos novos condomínios da Paralela que prometem verde, lazer, segurança sem sair de casa. Precisamos comprar tudo isso? Os parques públicos, as praças não são ambientes propícios para isso? Ao mesmo tempo lembro que temos diversos bairros em Salvador que tem famílias que mal possuí um ambiente para morar, quanto mais para ter verde, lazer, segurança.
Chega!!!!! Eu não quero revoada de periquitos sendo expulsos do seu lar, não quero falcões, carcarás caçando e matando a si próprio por não ter onde viver. Eu quero espaço para todos, eu quero lazer para todos, eu quero dignidade para todos. Eu quero verde da Paralela para os falcões, os carcarás, os periquitos, para Salvador.
O Parque de Pituaçu e outras áreas verdes da cidade devem ser públicas e para o público. Não precisamos de mais shopping (comprar), precisamos do verbo VIVER a cidade para todos e não para alguns.
Gisele Oliveira de Lima 03/10/2009
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Um comentário:
Boas observações a respeito do nosso processo civilizatório. Precisamos mesmo questionar essa baianidade vendida para turista e que não reflete nossa realidade sofrida, a exemplo de um suposto enigma do atraso baiano. Para seu desespero -seu mesmo Gisele (rsrsrs), estamos esperando mais um aranha-céu na orla, em frente ao Jardim dos Namorados. O interessante é que os ricos e abastados de uma alta classe média acham que com a vista para o mar vem também a disponibilidade de usar o mar, mas o mar é puro esgoto. Eis a baianidade enigmática.
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