quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Saudade

Magoa-me a saudade


do sobressalto dos corpos

ferindo-se de ternura

sói-me a distante lembrança

do teu vestido

caindo aos nossos pés



Magoa-me a saudade

do tempo em que te habitava

como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo-se

nas pupilas desatentas



Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui água, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta



Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

os animais que atormentam o meu sono



Mia Couto*


*Escritor Moçambicano com vários romances, contos, crônias e poesias publicadas.

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