segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O olhar ofuscante


As lembranças confusas e tortas não me deixaram dormir tranquilamente essa noite. Acordei com a sensação que algo precisava ser feito. Relutei bastante, mas aqui estou. Preciso dizer o que tanto me acompanha todos esses dias, o que me aconchega e me consome.

Eu me permitir mergulhar no seu ser, me permitir olhar na fresta do dito e o não dito. Fui me enredando em ver além do que você quis me mostrar ou achou mais prudente me esconder. Vi muitas coisas, muitas gostei, outras nem tanto.

Lembro o quanto foi prazerosa a nossa ida a praia de Stella Maris. O quanto foram longas nossas conversas sobre política, sobre a Bahia, sobre a mídia... Tantas conversas e tão pouco sobre nós!

A surpresa se deu no momento em que saboreávamos uma deliciosa moqueca na Boca do Rio mirando o decadente Aeroclube. Apesar de estar em frangalhos, o conjunto da vista não era feio, e foi em meio ao que se via e conversávamos que você se mostrou por um instante. Um olhar saudoso se formou ao relatar as idas com seu pai para pescar e quando o propósito não era alcançado sempre se tinha no caminho para casa pequenas feiras que socorriam os aventurados pescadores. Ao lembrar disso me ocorreu que nos breves momentos em que estivemos juntos você pouco falava de sua mãe.

Andar de carro era também acariciar sua cabeleira cheia, preta, encaracolada, e seus olhos se dividiam entre a direção e os olhares safados ou carinhosos dirigidos a mim. Os beijos muitas vezes tornavam as pistas retas em tortuosas. 
  
Mas estava nos olhos a ponte para me jogar no mar sem fim do seu Eu.  Por de trás daqueles aros pretos e lentes embaçadas tinha um olhar de luz intensa que ofuscava nossa visão ao mirarmos com afinco para dentro dele. Os olhos que tudo queria ver e se esconder.

Me ousei tirar seus óculos e me aproximar aos seus. Foi a partir daí que me perdi. Foi nessa luz intensa, viva e ofuscante que me via encegueirada pela pessoa doce que se esquivava através dos discursos políticos. No entanto não me contentava em te contemplar, te esmiucei em mais detalhes, foi aonde pude ver o egoísmo, a vaidade que se sobressaia nesses mesmos discursos. Apesar de tudo não me incomodava com seus defeitos, eles faziam parte de você.

A doçura do seu olhar enciumado sem tecer uma palavra, o olhar de criança ao se tornar o meu centro de atenção, os beijos de surpresa, a certeza da sua mão apertando a minha, a tranquilidade da sua companhia, as noites sem fim de conversas a mil, os olhares silenciosos que diziam muito mais do que mil palavras tornavam os seus defeitos passíveis de serem compreendidos. O contemplar e observar fizeram de ti mais bonito do que aparenta ser: um homem curioso, ambicioso, sonhador, medroso e carente.

Desde então não ouço mais Caymmi e suas canções praieiras como outrora, não me delicio com os Novos Baianos sem antes me lembrar da cabeleira negra, cheia e encaracolada do seu pai “Moraes Moreira” que você herdou. Essas são memórias que não são minhas, mas que compõe parte do seu Eu em mim.
 
Esse seu Eu que ficou em mim não te pertence e nem a mim mesmo, ele faz parte dessa memória que aqui relato. Talvez nos anos vindouros não me reconheça nessas palavras que aqui escrevo. Se o acaso provocar o nosso reencontro quem sabe poderemos ler juntos essas palavras que pertencem ao Tempo.

Gisele Lima 21/08/2011

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